Lojas centenárias ajudam a contar história de Pouso Alegre

Três lojas históricas de Pouso Alegre mantêm negócios familiares que atravessaram décadas: a Casa Andare tem 106 anos, enquanto as casas Morato e Sarkis têm 81 anos cada, segundo a reportagem.

O comércio é apresentado como parte da memória de Pouso Alegre, cidade que completava 178 anos em 2026. As trajetórias das lojas também registram mudanças nos produtos e nas atividades ao longo do tempo.

Publicada em 20 de outubro de 2026, a reportagem reúne relatos de integrantes das famílias Andare, Morato e Sarkis, além do depoimento de uma cliente da Casa Morato.

lojas históricas de Pouso Alegre

As histórias abordam a continuidade dos negócios entre gerações e as relações construídas com a clientela. Os relatos também recuperam episódios e objetos ligados à trajetória comercial de Pouso Alegre.

Casa Morato preserva objetos e características de outras épocas

Um livro de compras de 1944 está entre os registros guardados por André Morato, que administra a Casa Morato com a mãe. Neto dos fundadores, o casal italiano René Morato e Maria Zuccon, ele conta que o livro foi transferido para o avô em 4 de abril de 1945. A história do comércio envolve três gerações da família: os avós, o pai de André, Fernando, e o próprio André.

René e Maria viveram em Ouro Fino antes de se mudarem para Pouso Alegre, onde abriram a loja como mercearia. Segundo André, o estabelecimento passou pelo racionamento que atingiu a população no período do pós-guerra, com cadernetas usadas para registrar as compras. Ele também relata que o pai contava que cavalos eram amarrados na porta do comércio.

Parte da memória da loja permanece na arquitetura: o piso tem ladrilhos com desenhos florais, e a bancada de madeira maciça exibe marcas do tempo. Nas paredes, há murais com beija-flores pintados à mão; uma porta alta de madeira, com marcas de tintas antigas, e uma janela também fazem parte da estrutura preservada.

Entre os produtos e objetos mantidos no local estão panelas de ferro, tachos, moinhos, torradores de café e filtros de barro, além de ferramentas e utilidades atuais. Um bico de arado e latas de sementes reaproveitadas como porta-pregos têm quase meio século, enquanto a balança tem cerca de 70 anos. Vanilda, cliente há mais de 40 anos, acompanhou gerações da família no balcão; André também recorda que o pai trabalhou ali por 68 anos e, aos 86, queria voltar à loja um dia antes de morrer, mas sofreu uma parada cardíaca antes de chegar.

Casa Andare mudou de ramo ao longo de sua trajetória

A Casa Andare foi fundada em 1920, em Santa Rita do Sapucaí, e pouco depois transferida para Pouso Alegre. Criada pelos irmãos João e Pedro Andare, funcionava na Avenida Doutor Lisboa e passou à geração seguinte, representada por Willy Andare. Segundo Ravi Andare, neto de Willy e atual proprietário, a loja vendia tecidos, roupas, brinquedos e produtos nacionais e importados, chegando a ser o maior magazine de Minas Gerais.



Ravi conta que o avô mencionava a venda de mortalhas, descritas por ele como ternos usados para enterrar os mortos. Os familiares ligavam para informar aproximadamente o tamanho do falecido, e Willy separava uma peça que, segundo o relato, parecia ter apenas a parte da frente. O episódio ilustra a variedade de produtos que a loja oferecia em outras épocas.

Fotografias registram a presença da Casa Andare na história da cidade: em 1968, a fachada foi transformada em um bolo gigante durante o desfile dos 120 anos de Pouso Alegre. As vitrines também atraíam visitantes do Sul de Minas. De acordo com Ravi, a loja chegava a permitir que as pessoas entrassem na vitrine quando estava fechada, onde funcionários montavam ferroramas que ficavam rodando nos fins de semana.

Com o passar do tempo, a família alterou as atividades comerciais. Willy abriu a antiga Dom Nery, que funcionou por cerca de 40 anos e fechou após a morte dele; a Casa Andare passou a vender móveis para escritórios e para outras lojas. Ravi afirma que a continuidade do negócio exige acompanhar as demandas do mercado com a experiência deixada pelas gerações anteriores.

Casa Sarkis mantém o legado de um mascate libanês

Fundada em 1945 pelo mascate libanês Ayub Sarkis, a Casa Sarkis chegou à quarta geração da família. Marcos, que trabalha no comércio há 50 anos, administra a empresa com o filho Guilherme. Ele conta que Ayub percorria fazendas do Sul de Minas no lombo de um burro para vender tecidos e outros produtos, enquanto a avó de Marcos cuidava da loja.

A Casa Sarkis comercializava itens como perfumaria, calçados e cobertores, mas os tecidos eram o principal produto. Marcos aprendeu a cortá-los e relata que chegou a ter calos nas mãos por causa do trabalho. Com as mudanças no mercado, a loja passou a trabalhar com malas e acessórios para viagem.

Chapéus e guarda-chuvas também estiveram entre os produtos procurados no comércio, segundo Marcos. Ele recorda que Pouso Alegre tinha uma fábrica de guarda-chuvas administrada por um primo de seu avô. Para Marcos, o atendimento e a relação com os clientes são parte da cultura da loja e ajudam a explicar sua permanência ao longo das décadas.

Uma história contada na família sobre Ayub ganhou confirmação quando um homem entrou na loja com a filha para comprar um chapéu e disse ser o fazendeiro que havia acolhido o mascate. Segundo o relato, o burro caiu em um riacho durante uma travessia e parte da mercadoria foi levada pela água; depois de recolher o que conseguiu, Ayub foi recebido na fazenda e jantou frango caipira. Guilherme, da quarta geração, afirma que assumir a continuidade do negócio é desafiador, mas sente orgulho de dar sequência ao legado iniciado pelo bisavô.



Deixe um comentário