Uma investigação sobre fraude na limpeza urbana apura suspeitas de propina e superfaturamento em contratos de prefeituras de Minas Gerais. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), um dos métodos investigados envolve falsificação de registros de pesagem de resíduos.
A apuração começou em 2023, a partir de investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo. De acordo com o MPMG, um empresário do setor teria oferecido pagamentos a agentes públicos municipais para conseguir contratos.
Em 28 de outubro de 2026, o MPMG cumpriu mandados em prefeituras do Sul de Minas e na sede da empresa THV, em Pouso Alegre. Agentes públicos e empresários estão entre os investigados.

O caso pode envolver pelo menos 39 cidades de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A operação apura a atuação do grupo, os contratos investigados e possíveis prejuízos aos cofres municipais.
Mandados e afastamentos atingem prefeituras do Sul de Minas
Na operação Forças Ocultas, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) cumpriu 20 mandados de busca e apreensão e pediu o afastamento cautelar de três agentes públicos. As diligências ocorreram nas prefeituras de Gonçalves, Pouso Alegre e São Gonçalo do Sapucaí, além da casa de um investigado em Varginha.
Entre os materiais recolhidos estavam celulares, pendrives, notebooks e documentos. Segundo o coordenador regional do patrimônio público do MPMG, Eduardo de Paula Machado, os itens serão examinados pelos investigadores.
Parte dos materiais foi apreendida na sede da THV, em Pouso Alegre, e encaminhada ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), responsável pela extração e análise dos dados. O conteúdo poderá subsidiar a apuração sobre os contratos municipais investigados.
Por determinação judicial, um funcionário da Prefeitura de São Gonçalo do Sapucaí foi afastado. Em Pouso Alegre, dois servidores também deixaram as funções e estão proibidos de manter contato com outros investigados ou de acessar prédios públicos municipais; um mandado de prisão preventiva contra uma pessoa ligada ao setor empresarial não foi cumprido porque ela não foi encontrada e, segundo o MPMG, é considerada foragida.
Investigação apura propina e fraude em tickets de pesagem
Segundo Eduardo de Paula Machado, a fraude na limpeza urbana investigada incluía alterações nos comprovantes usados para calcular o peso dos resíduos destinados aos aterros sanitários. Os caminhões são pesados na entrada e na saída, e a diferença indica a quantidade descartada que pode ser cobrada do município.
De acordo com o MPMG, o grupo teria falsificado os tickets de pesagem para registrar um volume maior do que o efetivamente despejado. Com isso, as prefeituras poderiam pagar por uma quantidade de lixo superior à real, elevando indevidamente os valores dos contratos.
O prejuízo estimado em São Gonçalo do Sapucaí chega a R$ 4 milhões, referente ao período entre dezembro de 2021 e abril de 2026. A apuração também investiga outros mecanismos de superfaturamento nos serviços contratados pelas administrações municipais.
Apuração alcança cidades de quatro estados e contratos da THV
O MPMG identificou indícios de pagamentos irregulares em 14 prefeituras mineiras, que somariam R$ 1,4 milhão ao longo de 14 meses, entre agosto de 2022 e outubro de 2023. A estimativa do Ministério Público é de que o esquema possa ter atuado em pelo menos 39 cidades de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
O coordenador do Gaeco de Pouso Alegre, Márcio Henrique Mendes, afirmou que a investigação já reuniu documentos e perícias, além de ouvir testemunhas. Segundo ele, os trabalhos estão avançados e a Promotoria deve apresentar denúncia.
A Prefeitura de Pouso Alegre informou que entregou os documentos e as informações solicitados e cumpriu as determinações judiciais, inclusive o afastamento dos servidores. Já a administração de São Gonçalo do Sapucaí declarou que a THV foi contratada entre 2021 e 2024 e que anteciparia o fim do contrato, previsto para dezembro de 2026; uma nova licitação já foi realizada para contratar outra empresa.
Em Gonçalves, a prefeitura afirmou que o contrato com a THV foi firmado em 2020, após licitação, e que servidores já prestaram esclarecimentos às autoridades. São Sebastião da Bela Vista declarou que o investigado mencionado na apuração não faz parte do quadro municipal; a empresa THV não respondeu ao contato da reportagem.


